domingo, 10 de abril de 2011

Procrastinação desenfreada

Deixo o amanhã para o amanhã
Amores, sabores, direitos e deveres
Tudo fica para o dia do amanhã
Aquele fatídico dia que nunca vem

Sempre haverá amanhã enquanto se vive
Mas mesmo assim, o amanhã nunca chega
É sempre assim, todo dia é assim
E sempre será, se nada mais começa

Acendo um, apago outro
Gasto mais uma noite olhando pela janela
Luzes parecidas com pequenos pontos
A mesma casa, a mesma cela

Medo de sair, receio de voltar
Prefiro dormir e não pensar em nada
Problemas vem sempre para ficar
Desistir não significa parar para repensar

Na TV a tela escura que reflete meu olhar
Sei que devia fazer hoje o que é de hoje
A cadeira gira, como um peão à rodar
Insistindo para que eu deixe tudo pra depois

Um depois que nunca vem... e nunca veio.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Depression or sadness?

“People think depression is about being sad. They think it’s just when you ‘feel down’. It’s not. It’s like a darkness that creeps over you and fills you. It drains all your emotions. It takes everything from you, and leaves you feeling hollow and numb. It’s not sadness, it’s not anger, it’s hopelessness. Imagine waking up and there being no colour. Walking outside and feeling no wind. Eating a meal and tasting nothing. Holding someone and feeling completely alone at the same time. When you’re depressed, it’s not a bad mood. It’s a numb, empty, hollowness that seems to never leave. It’s feeling alone in a room full of people. You feel like there’s no hope left.”

“As pessoas acham que a depressão é algo como ficar triste. Elas pensam que é só quando você se sente “pra baixo”. Não é. É como uma escuridão que te rodeia e entra completamente em você. Suga todas as suas emoções. Tira tudo de você e deixa você se sentindo vazio e entorpecido. Não é tristeza, não é raiva, é desesperança. Imagine acordar e não ver as cores. Sair e não sentir o vento. Comer uma refeição e não sentir o gosto. Estar com alguém e se sentir completamente só ao mesmo tempo. Quando você está deprimido, não é um mau humor. É um entorpecimento, um vazio que nunca parece desaparecer. É se sentir só num quarto cheio de pessoas. Você se sente como se não houvesse mais esperança.”

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

dia/noite dos namorados/solitários

Feliz dia dos namorados. Feliz dia dos desesperados.
Saia com sua companhia. Fique em casa sem alegria.
Compre flores e chocolates. Compre whisky barato e conhaque.
Vá ao parque ou ao cinema. Alugue filmes, veja e reveja.
Olhe nos olhos. Alimente mais o ódio.
Amorosa declaração. Pontada no coração.
Compre um presente caro. Fume mais um cigarro.
Saia para jantar, reseve uma mesa. Peça uma pizza de calabresa.
Jantar à luz de velas. Todas vadias, cadelas.
Mãos dadas e dedos entrelaçados. Pele machucada e punhos cerrados.
Dançando tango no centro do palco. Ouvindo Radiohead chorando no quarto.
Amor é o sentimento mais lindo do mundo. O amor não existe, utopia do mundo.
Viaje muito, não se importe com o dinheiro. Gaste o que tiver num bar ou num puteiro.
Alegria inocente, como se fossem crianças. Nada além de solidão e lembranças.
Paixão pela vida. Dor desapercebida.
Desejo. Medo.
Amor. Rancor.
Empolgação em acordar, a vida parece uma aventura. Depressão na madrugada, feridas que não se curam.
Perseverança. Insegurança.
Motivações para continuar.  Pensamentos de se suicidar.
Beleza. Tristeza.
Sorte no jogo do amor. Azar em tudo que sonhou.
Parece um casal daqueles de cinema. Problema, problema e mais problema...
Gentilezas como abrir a porta do carro. Aquele que é sempre só, motivo para os outros tirarem sarro.
Mão discreta no ombro, abraços confortantes. Ninguém pra desabafar, objetos cortantes.
Beijo apaixonado de novela. Carência afetiva e inveja.
Sorrisos sinceros e demasiadamente bonitos. Será que as coisas podem ficar piores que isso?
O mundo é lindo e colorido. Tudo em preto-e-branco e destruído.
Céu azul, grama verde. Sem passado, sem presente.
Almas gêmeas, anjos da guarda. O céu é dos amantes, o inferno te aguarda.
É tão bom ter alguém ao alcance. Nunca teve nem terá alguma chance.
Romance cliché e exagerado. Nunca deram valor, sempre será desprezado.
O amor vai mudar o mundo. Mais um gole no whisky vagabundo.
Data para comemorar a união. Data comercial feita de desilusão.
Cama de casal, amor mútuo. Apartamento frio e esquecido no subúrbio.
Lembranças felizes e expectativas. Diversões baratas e sem alegrias.
A vitalidade de um amor correspondido. Morto, mesmo que ainda esteja vivo.
Olhos brilhantes, coração acelerado. Ainda vão arrepender de não terem valorizado.
O casal unido e apaixonado. O cara sozinho que nunca é notado.
Tenha um feliz dia dos namorados. Tenha um infeliz dia dos namorados.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Rod

O garoto chega em casa da escola, cansado e em prantos. O pai, extremamente severo, pergunta com um tom agressivo:
- o que foi dessa vez?
O filho responde com uma voz baixa e pausada, aos soluços:
- eu... eu não quero mais viver... não quero ir pra escola... não quero mais...
O pai fica vermelho e dá um tapa no filho
-COVARDE! como pode dizer isso? Pare de chorar e vá trocar de roupa... Seja homem, moleque! Homem!
E o filho diz:
- Preciso de uma ajuda... um psicólogo talvez...
- E desperdiçar meu precioso dinheiro. Nem pensar! Isso é coisa de malucos e descontrolados, você é um menino de 15 anos, tem que estudar e jogar futebol, não pensar nessas coisas. Agora vá se trocar de uma vez! Garotos não choram, lave o rosto!
E ele, de cabeça baixa, obedeceu o pai.

Bem, partindo pelo princípio, Rod era filho único (seu nome era fruto da paixão da mãe pelo músico Rod Stewart). Sua mãe morreu por complicações do parto. Desde então o pai, Pedro (que se orgulhava do próprio nome, considerado viril) criado com muita disciplina e rigidez (seu falecido pai era um ex-militar), cria o filho sozinho com a mesma educação que recebeu. "Seja homem, trabalhe duro, não reclame" eram frases que seu pai falava muito, para que ele crescesse da "maneira exemplar". Agora ele usa os mesmos bordões para o filho Rod (por dentro, ele descontava no garoto toda a raiva de ter tido uma infância dura e da morte da esposa, mas nem ele mesmo se dava conta disso).

Pedro, na noite do mesmo dia que o filho chegou arrasado do colégio, estava na sala vendo futebol e tomando cerveja. Rod chega na sala e fala pro pai, de cabeça baixa.
- Estou sofrendo muito, cansei de tudo, de todos... Cansei...
- Fica quieto! Estou vendo o jogo.
- Preciso de ajuda!
- Vai ver TV, estudar... Puta que o pariu, chuta a bola direito, caralho!
E o filho foi para o quarto em silencio. Ficou chorando a noite inteira.

Nos dias seguintes, as conversas se repetiam. O filho queixava-se para o pai, o pai dava um sermão e mandava o garoto "sair mais de casa e jogar bola" ou mandava "estudar". Rod tentava pedir ajuda, dizia que sofria "bullying".
- Pai, eu apanho na saída da escola.
- Seja homem, garoto! Vai reclamar com a direção, mande o seu amigo se catar, sei lá, agora me deixe almoçar, tenho que voltar ao trabalho daqui a pouco! Você só arranja problema, és um garoto, vai brincar!

As conversas nem se repetiam mais. O garoto escondia sua dor e sua raiva, pois sabia que as respostas seriam as mesmas de sempre.
Um belo dia, o filho não aguentou mais e falou novamente, dessa vez com a voz mais alta e chorosa:
- Cansei. Só levo porrada! Nada melhora! Cansei dessa vida!
- Para de choramingar! Seja homem! Eu trabalho duro e não fico por aí reclamando... Vai brincar na rua de tarde, tenho que trabalhar daqui a pouco, você só vai me atrasar!
Conformado, Rod disse de forma seca e decepcionada:
- Tá bom, pai.
- Esse é meu garoto!
Mas Rod não foi brincar na rua.

Quando Pedro chegou em casa, viu algo chocante. Seu filho, enforcado com sua gravata favorita (Pedro considerava gravatas um símbolo de masculinidade e compromisso com o dever), no alto de uma haste do quarto.
Caiu em prantos, como nunca antes. Ficou se perguntando "o que houve de errado? Por que ele fez isso? Por que ele não era como os outros garotos".
Chorando muito, mas querendo descobrir as respostas de seus questionamentos. Pedro viu um bilhete nas mãos do filho enforcado. Respirou fundo e abriu a nota de suicídio. Para sua surpresa, não era nada complexa, ou que visava responder diretamente suas perguntas. As lágrimas caiam como uma avalanche pelo rosto enrugado de Pedro.

A nota dizia: "seja homem!"





Ps: O nome dos "personagens" são metafóricos e não foram "escolhidos" por acaso.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Tic-Tac

O tempo não perdoa ninguém. Isso é fato.
Mais um ano está no fim e, com um pesar na alma, é preciso reconhecer: estou envelhecendo.

Todos estamos envelhecendo, mas envelhecer não significa ficar mais experiente. Muitas vezes agimos com a inocência de uma criança impulsiva, repetimos os mesmos erros, nos lamentamos por passar mais um ano sem conseguir realizar feitos, objetivos antigos.
Olhar pra trás e reviver memórias é sempre uma experiência dolorida. Nos remoemos por termos tido momentos ruins e sentimos falta dos momentos bons. O tempo não perdoa, o vento leva tudo embora...

Quantos sorrisos passaram desapercebidos? Quantos momentos foram substituídos por outros mais marcantes e, de certa forma, apagados da memória, como se nunca tivessem acontecido? É, o tempo não perdoa, a memória que fica torna os anos com menos de 365 dias...

Enquanto um grão da ampulheta cai, um momento futuro se torna presente e então passado, num piscar de olhos. Há um motivo pra passagem estreita da ampulheta ser o presente enquanto as partes de cima e de baixo são mais amplas. Pensamos (e, conseqüentemente, vivemos) muito mais no passado e no futuro do que no presente. É um ato inconsciente e inconsequente. O tempo faz isso com a gente, como se nossa mente fosse um rato caindo na velha armadilha da ratoeira. O tempo não perdoa, nos prega peças que caímos o tempo todo. Caímos no buraco negro do tempo, todo o tempo.

Os relógios antigos incomodam com os tiques-taques barulhentos. Lembro de ter dificuldades para dormir com o som dos ponteiros, emitindo um som cada vez que perdemos um segundo de nossa preciosa e falsamente imaculada vida. Ah, quantas noites perdidas, como se fosse torturado com aquele som, parecia que uma torneira pingando dentro da minha cabeça, e o registro não poderia ser fechado, estava de mãos atadas. O tempo não perdoa ninguém, nem trabalhadores, nem vagabundos.

Mas a vida, ah... a vida. O tempo que faz com que ela surja é o mesmo que ceifa ela, impiedosamente. Quanto eu vivi e deixei de viver? Eu me perco com os pés na terra, mas minha mente no ar. Quantas vezes me flagrei olhando pela minha janela, madrugadas eram o cinema que a minha memória gostava de assistir, revendo os clássicos da minha vida, sempre rebobinando a fita para rever mais uma vez, para apontar os erros que cometi, como um crítico daqueles bem ferrenhos. E ainda existia a imaginação, vendo cenas que não existem no passado, talvez exista no futuro, mas não vivi e nem estou vivendo as cenas que minha imaginação me proporciona quando olho para o céu estrelado. O tempo passa enquanto vivo no mundo paralelo, do passado e do futuro. O tic-tac continua enquanto viajamos no tempo. O tempo não perdoa ninguém, nem sonhadores, nem realistas.

Cabe a nós decidirmos como devemos usufruir do tempo que nos resta. Isso o tempo não pode controlar. No mais, o tempo não perdoa...
As reticencias significam que algo mais vem aí, o tempo... O tempo não para.

Por fim, um clássico que reflete bem o tempo como tema central:


E que o tempo fique do nosso lado em 2011!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Needle in the hay

Ela carrega consigo um ar de mistério que qualquer detetive gostaria solucionar, mas nem Sherlock Holmes e seu fiel assistente Dr.Watson teriam a capacidade de realizar tal feito. Um ar tão intrigante que atinge proporções gigantescas, causando um alvoroço por todos quando ela passa, mas ninguém sequer consegue pronunciar uma sílaba sobre isso. Ah, como é raro existirem pessoas (ou divindades) que carreguem uma personalidade tão fenomenal. É como achar uma agulha no meio do palheiro.
A ponte está levantada e não existe a mínima possibilidade de chegar ao outro lado, para assim, quebrar o silêncio que rodeia ela. Dá até para comparar com a lenda o pote de ouro no final do arco-íris, ela é o pote de ouro, mas o arco-íris, por si só, já é inalcançável.
Gostaria que surgisse algum manual para quebrar o encanto dela e tornar o inalcançável, enfim, alcançável. Mas manuais que realmente ensinam alguma coisa não existem (pelo menos, nunca encontrei e não conheço quem tenha encontrado alguma vez), principalmente que ensinam a decifrar um enigma tão complexo. Ela é a esfinge que não diz "decifra-me ou te devoro", e sim, a que fica calada dando apenas a entender que serei devorado pela minha própria curiosidade.
O que fazer mediante uma situação dessas, solitário e perdido no meio do nada, sem um norte para a minha bússola apontar. A dor de querer algo que não se pode ter é como pingar limão na pele debaixo de um sol escaldante. A diferença é que a dor é de dentro para fora e não de fora para dentro.
Dor, dor, dor... Tá... E a esperança? A esperança está viva no meio dessa dor, aliás, muito bem viva e guardada, pois se não estivesse, jamais haveria a necessidade de passar pela dor. Se escolhi o caminho que mais machuca, quer dizer que há um pingo de esperança.
Ela e tudo isso podem fazer parte apenas de um sonho confuso e distante. Mas sonhos só são sonhos quando se existe um sonhador para acreditar neles...

domingo, 14 de novembro de 2010

Teias de aranha

Vejo sujeira por todos os lados em que olho. Não sei se há sujeira nos meus olhos escuros como a noite, ou se o mundo em si é um amontoado de lixo. Inclusive a minha casa (não no sentido literal, logicamente).
Em todo caso, uma coisa eu posso ter certeza, é preciso uma limpeza. Não uma limpeza qualquer, uma limpeza por completo... As teias de aranha se acumularam com o passar dos anos no fundo do armário, estão lá há muito tempo.
Às vezes sinto uma dó por tirar as teias, pois assim estaria destruindo as aranhas que lá habitam, estaria destruindo um lar feito tão arduamente para dar prioridade a outro: o meu. Me pergunto por horas a fio (com o perdão do trocadilho) se isso é justo...
Nos atingimos um limite, mudanças precisam ser feitas com urgência, senão, iremos esperar e esperar e esperar até que a teia cresce demais e você percebe que não fez nada a respeito. Isso se chama procrastinação.
Daí vem outro problema (é incrível como os problemas sempre surgem aos montes, de forma desenfreada): o medo. Medo de ser picado e envenenado por uma daquelas aranhas pequenas e perigosas. O medo paralisa, como que se eu estendesse a mão para começar a limpeza e ela não consegue mais ir para frente.
É preciso pensar nos benefícios futuros que esse trabalho fará e esquecer um pouco dos temores, afinal, se algo acontecer, aconteceu. Todos vamos morrer mesmo no final, então é mais digno morrer tentando fazer algo benéfico para sí (é importante salientar que demorei para concluir que dar valor a sí não quer dizer egoísmo).
Então, está decidido, vou destruir as belas, porém incômodas, teias de aranha acumuladas na minha vida. Pode parecer um pequeno progresso, pois não é visível para as outras pessoas (ah, elas que julgam tudo e todos, nunca está bom o suficiente para os eternos críticos chamados humanos), mas é um grande avanço, para atingir um objetivo final: a casa limpa, sem sujeira alguma para tirar o sossego. Pode parecer utópico, mas é necessário pensar assim para melhorar definitivamente.